Em busca da verdadeira vocação

A escolha da profissão é algo muito sério, mas nem sempre nossas decisões são as mais acertadas. Entretanto,  nunca é tarde para rever os caminhos e encontrar novas possibilidades profissionais. Foi o que aconteceu com alguns dentistas que descobriram outras oportunidades, muitas, inclusive, na própria área de Odontologia, e hoje se sentem totalmente realizados.

A profissão de dentista é uma ocupação bastante antiga e igualmente nobre, que impõe aos profissionais uma rotina de trabalho dinâmica e com muitas responsabilidades. Assim como várias outras profissões, a odontologia vem passando por diversas transformações e, hoje, faz parte de um contexto maior com foco na promoção da saúde.

O Brasil tem hoje uma das odontologias mais respeitadas do mundo, com profissionais altamente preparados que se destacam nas mais diversas especializações.

Entretanto, existem dentistas que não se acostumam com a rotina de atendimento em consultórios. Com isso, descobriram novas possibilidades de carreira, algumas, inclusive, ligadas à própria área de odontologia, onde podem aproveitar também os conhecimentos acadêmicos e conquistar o sucesso profissional.

Esse foi o caso de Isabella Cristina Mendes Pinheiro, Sócia-Proprietária e Responsável Técnica da Dental Oral Line, empresa que comercializa produtos odontológicos. Desde os três anos de idade, Isabella, hoje com 28 anos, já falava em ser dentista. O sonho se tornou realidade em 2006, quando ela se formou na Faculdade de Odontologia da USP.

A partir de então, Isabella trabalhou na área clínica por somente um ou dois anos. Para ela, a experiência em consultórios estava muito distante do exercício da Odontologia que ela tinha em mente. “Era conflitante. Digo isso, pois, comercialmente, tínhamos em mãos produtos importados de alta qualidade e no consultório nem sempre era possível fazer uso deles. Por muitas vezes, levei resinas e outros produtos para trabalhar por cobrança pessoal minha em busca da qualidade”, conta Isabella.

Ela também achava a rotina de consultórios muito desgastante. “Aprendi odontologia por paixão e sempre me esforcei ao máximo para conhecer os melhores tratamentos possíveis. Porém, a rotina do consultório era algo que me incomodava: tensão e atenção constantes em um campo muito pequeno o tempo todo. A ausência de estabilidade financeira, férias e licença-maternidade foi outro fator que me levou a pensar em outra possibilidade profissional”, conta.

A oportunidade de seguir carreira na área comercial despontou já no primeiro ano de faculdade, quando Isabella começou a trabalhar em uma importadora de produtos odontológicos onde fazia atendimento telefônico a dentistas.

“Depois disso, juntamente com duas amigas também estudantes, montamos uma representação dessa empresa. Aumentamos as linhas, de acordo com a procura dos dentistas, e com o tempo abrimos uma dental. Hoje, a Oral Line é conhecida por ter um atendimento muito diferenciado no mercado, produtos importados e de alta qualidade, além de um atendimento técnico eficiente, mas ao mesmo tempo pessoal. Para tanto, trabalhamos com poucos tipos de produtos para um mercado muito focado”, explica.

 Profissão certa

A rotina de trabalho de Isabella continua corrida. Na Oral Line, ela cuida da área de marketing, supervisiona o departamento de vendas (metas e planejamento), além de ser responsável técnica (atendimento aos dentistas com dúvidas em relação ao uso e armazenamento de produtos etc.).

“É difícil definir o que eu mais gosto hoje na área em que trabalho. Aprecio várias atividades. O que posso garantir é que, decididamente, estou na profissão certa. Consigo usar os conhecimentos que adquiri na faculdade, preciso sempre estudar e acompanhar todas as novidades na área e participo de muitos cursos e eventos. Associei a paixão pela ciência Odontologia com relacionamento interpessoal e comunicação. Tenho muito prazer em saber que o pouco que faço acaba repercutindo em melhor qualidade de atendimento a pacientes e na sua saúde bucal”, acrescenta.

Quando perguntada se ela voltaria a trabalhar em consultórios, Isabella não descarta essa possibilidade. “Jamais devemos dizer nunca, mas acho que só voltaria a trabalhar em consultórios com outro foco. Precisaria de uma especialização antes para realizar o que realmente gosto de fazer”, revela.

Na opinião de Isabella, sempre é tempo de repensar a carreira e descobrir algo que traga mais satisfação pessoal e profissional. “Acho que muitos colegas devem pesquisar um pouco para conhecer melhor a área de atuação de dentistas em empresas. Muitas têm contratado responsáveis técnicos. Tenho diversos colegas dentistas nessa área, que oferece suas vantagens, principalmente para aqueles que descobrem uma veia de marketing ou vendas que estava adormecida. O importante mesmo é a pessoa se sentir bem com o que faz. Sinto-me realizada hoje, mas acho que é só o começo de uma longa caminhada”, garante.

Como Isabella, a dentista Débora Carvalho Vieira Furlani também descobriu novas possibilidades de trabalho ligada à Odontologia. Entretanto, a diferença é que Débora, formada desde 1996, ainda se divide entre a rotina na área clínica e o trabalho como gerente de marketing da Geistlich, uma multinacional suiça especializada em medicina e odontologia regenerativas.

Nascida em uma família de dentistas, Débora, que também possui especialização em dentística, praticamente cresceu dentro de um consultório odontológico. A admiração pela profissão, aliada à familiaridade com a área, foram fundamentais para que ela optasse por essa carreira.

Hoje, ela divide o consultório com o marido. Entretanto, apesar da vocação, a rotina diária da clínica sempre a incomodou, razão pela qual buscou novos caminhos profissionais.

A oportunidade na área de marketing veio por acaso. “Essa nem é a minha especialidade, mas, com certeza, a odontologia regenerativa é um mercado muito promissor”, avalia.

Antes da atual atribuição, Débora já havia atuado em outras empresas do segmento. Como gerente de marketing da empresa, ela tem grandes desafios, mas Débora consegue conciliar os dois trabalhos sem grandes dificuldades.

“Na verdade, sempre digo que se a pessoa quiser ser boa em algo é preciso priorizar. Portanto, hoje costumo dizer que a Odontologia para mim é um hobby. A minha prioridade mesmo, e o que me dá mais prazer, é o meu trabalho na Geistlich. O consultório fica mesmo para as horas vagas”, conta.

Comunicativa, Débora gosta do contato com o público que a atual função lhe proporciona. “Outra característica que me fascina nesse trabalho é a falta de rotina. Todo dia é diferente do outro: um dia estou no escritório, em outro em um congresso, em outro em uma faculdade etc. A faculdade de Odonto, com certeza, me ajudou muito. Se não fosse por ela eu não estaria aqui”, reconhece.

Para Débora, nunca é tarde para rever os rumos da carreira. “Acredito que sempre é tempo para mudar qualquer coisa em nossas vidas. Hoje, sinto-me realizada, mas ainda não alcancei a minha meta, mas ocupo uma posição bem favorável nesse percurso”, declara.

Uma grande virada

Se existem dentistas que não conseguem ficar presos à rotina de consultórios e descobriram novas possibilidades na Odontologia, há também casos de profissionais que tiveram coragem de jogar tudo para o alto e partir para áreas totalmente distintas.
Foi o que aconteceu com Karen Marcos, atualmente professora de Biologia e Química para o ensino médio, que concluiu o curso de Odontologia em 2000 na PUC-PR.

Ela começou trabalhando em um convênio odontológico. Em 2004, fez um aperfeiçoamento em prótese fixa e removível. Somente após quase quatro anos de formada, Karen abriu sua própria clínica.

“Na verdade, eu não tinha a mínima vocação para a Odontologia, pois nunca gostei da rotina de um consultório. Aliás, desde a época de faculdade, tive muitos conflitos e vontade de largar o curso para fazer Ciências Biológicas. Sempre gostei muito da área biológica e, teoricamente, pensei que a odontologia uniria o útil ao agradável, ou seja, eu faria algo na área que adoro e ainda ganharia bem com isso”, revela.

Karen trabalhou em consultório até o final de 2006, quando decidiu mudar totalmente a vida profissional. “O que mais me agradava era ver a satisfação dos pacientes após a conclusão de um trabalho. Atualmente, a Odontologia está muito desvalorizada. Muitos pacientes não entendem o custo dos tratamentos, enfim, no fim das contas você tem muito trabalho para pouco ganho”, analisa.

O fato é que desde criança, a Biologia sempre foi a paixão de Karen. “Quando eu estava no meio da faculdade de Odontologia, cogitei a hipótese de largar o curso e me transferir para Biologia, mas, na época, meu pai, que também é formado em Odontologia, mas nunca exerceu a função, não aceitou a ideia muito bem. Após alguns anos como cirurgiã-dentista, minha frustração como profissional era muito grande. Eu só tinha dois caminhos: continuar e permanecer frustrada profissionalmente até o fim dos meus dias ou dar uma reviravolta de fato, arriscar, largar tudo e ir atrás do que realmente poderia me realizar”, conta.

Assim, com todos os medos e receios possíveis, ela resolveu partir para uma outra área e garante não estar arrependida. “Gosto de tudo nessa nova profissão. O fato de não ficar o dia todo presa dentro de um consultório, conviver com os alunos, ensinar e aprender com eles é algo muito gratificante. A convivência e a troca de informações com colegas de profissão é algo muito bom também”, frisa.

A professora também é categórica ao dizer que não pretende exercer novamente a profissão de dentista. “Se eu soubesse como seria bom, sinceramente, teria deixado o medo de lado e largado tudo muito, mas muito antes. Não existe dinheiro que pague a satisfação pessoal em se fazer algo que ama”, justifica.

Por outro lado, Karen lembra que essa é uma decisão extremamente pessoal, que só a própria pessoa tem condição de definir. “Ninguém tem o direito, ou, pelo menos, não deveria ter, de opinar ou decidir o que você deve fazer para o resto da sua vida. Costumo aconselhar meus alunos para que se informem, pesquisem e conversem com profissionais da área sobre a profissão que querem atuar, a fim de verificar se a realidade realmente condiz com aquilo que eles imaginam. Acredito que embora não exista a profissão ‘perfeita’, pois todo trabalho tem seus dias bons e outros nem tanto, existe sim a ideal para cada um de nós”, completa.

Segundo ela, a transição profissional realmente não é nada fácil. Existe o medo, a insegurança de trocar o ‘certo’ pelo duvidoso e, muitas vezes, a pressão familiar para que isso não aconteça. “Mas, acima disso tudo, se essa mudança for feita de forma planejada e consciente, tem tudo para dar certo. Acredito que o mais importante é ter a certeza do que se quer e, para isso, é preciso ir atrás, se informar, pesquisar, conversar, trocar idéias. Independentemente da idade, sexo, profissão, tempo de atuação na área, se você está infeliz e frustrado nunca é tarde para mudar”, destaca.

Da Odontologia para a moda

Outro exemplo de coragem é o de Anne Massa Oliveira, que se formou em Odontologia há três anos, e hoje atua como designer de moda. “Na verdade, no início da faculdade, eu realmente gostava da área. Porém, no quarto semestre, comecei a ver que não era a escolha que queria fazer para o resto da minha vida. Mas estava com 21 anos e decidi levar o curso de odontologia adiante”, conta.

A oportunidade para trabalhar com moda surgiu após ela concluir a faculdade de odontologia. “Fiz vestibular para direito em algumas faculdades de Salvador (BA). Porém, em uma delas eu não passei em Direito, mas na segunda opção, que era design de moda. Logo, comecei fazendo direito em uma faculdade no horário noturno e moda matutino em outra. Porém, apenas a de  moda eu levei até o fim”, revela.

Atualmente, Anne trabalha com encomendas de vestidos de festas, além de produção, criação e consultoria na área de moda. Além disso, é aluna especial do curso de mestrado da UFBA (Belas Artes).

“Sempre gostei dessa área. No meu íntimo, sabia que eu queria levar adiante essa carreira, porém, havia o medo, pois moda aqui em Salvador não possui o campo adequado. Minha mãe também teve loja. Logo, eu participava do show room de grandes grifes”, ressalta.

Recém-formada em moda, Anne já ostenta algumas conquistas importantes. Logo no primeiro ano de faculdade, ela se inscreveu e ganhou um concurso local (Novos Criadores da Moda). Mas esse foi só o primeiro feito. Anne também participou do maior concurso de moda de Salvador, no qual ficou entre os três primeiros classificados.

“O que mais eu gosto nessa nova profissão é o dinamismo. Em um dia estou pesquisando tema para a coleção, em outro dia tenho que desenhar croquis e fichas técnicas. Em seguida, pesquiso tecidos e aviamentos. Logo depois, eu inicio o contato com a modelista e a costureira. Ao final de todo esse processo, sinto algo inexplicável. Uma felicidade e um amor que me consomem por completo”, explica.

Força de vontade para mudar

Para mudar totalmente o rumo de uma carreira, Anne diz que o primeiro passo é ter força de vontade. “Acredito que a mente nos leva onde queremos chegar. Mas a pessoa precisa ter muita garra e coragem para desistir de tudo, ir contra todos e acreditar nela mesma. Mas, claro, que existem outros fatores que interferem”, analisa.

Ela também confessa que embora a odontologia não seja sua verdadeira vocação, nada é definitivo. “O presente me dá essa percepção de que estou no caminho certo na área de moda. Se amanhã trabalhar com odontologia me tornar mais realizada, sigo em frente e corro atrás do prejuízo. Hoje, posso dizer que sou uma pessoa realizada profissionalmente. Acredito que quando realmente queremos algo, devemos seguir em frente e acreditar em nossos sonhos, pois o propósito de viver é enfrentar desafios. Nessa trajetória, o amor e a dedicação devem ser fatores dominantes em nossas ações. Se a escolha for feita com amor, não importa qual seja a profissão, a pessoa sempre buscará mais, e os seus sonhos a ajudarão a lutar e conseguir seu espaço no mercado”, garante.

* Por Madalena de Almeida – Jornalista

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Categorias: Carreira | Tags: , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Em busca da verdadeira vocação

  1. Fábio

    Realmente FANTÁSTICA a reportagem.
    Sou dentistas com duas pós e 12 anos de profissão. Sei o quanto é difícil mudar pois, depois de 9 anos de profissão tive certeza do que não queria – rotina de consultório. Acabei fazendo MBA em Gestão de Negócios na GV e virei consultor de empresas de saúde.
    Meus parabéns pelos ótimos exemplos.

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